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DOIDINHO
Ontem encontrei meu pai.
Por algumas horas me reconheci.
Dentro daqueles olhos embaçados pela catarata
Pude reconhecer o menino que eu era.
Aquele que ficava com febre quando ele sumia.
Que pulava no seu colo quando aparecia.
Que invadia o maracanã nas tardes de domingo.
O primeiro a festejar quando ganhava.
O ultimo a sair quando perdia.
Maluco de pedra esse coroa.
Tomamos algumas cervejas.
Ele é muito engraçado.
Por fora a cara toda marcada por rugas.
Por dentro mais jovem do que eu.
Rico no passado.
Salário mínimo no presente.
Nem se importa.
Vive assim desprendido.
Descabido.
Inconseqüente.
Delinqüente.
Safado.
Pirado
Cuzão.
Paizão!
Escrito por Cadu Fávero às 14h15
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DE UM GRANDE CAMARADA
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Astronauta de piscina, por Victor Hugo Cecatto
Saio do boteco da esquina, almoçado e quatrochoppado eh ssábado 2 e 15 da tarde no leblon, 17 de abril no calendario embarco na kombi rumo ao botafogo... praia cheeeeia, sol radiante mar azul... as contas estao todas pagas... sigo para um trampo ou melhor soh tenho de acompanhar uma montagem cenográfica que criei. sento no banco da frente... vamos eu e o motorista. puxo a superbonder do bolso da camisa, me olho no espelho, tiro os tres dentes da frente: uma protese miseravel provisoria que vive quebrando e jah nao aguenta mais esperar os implantes... coloco bonder nas duas extremidades, aproximo da boca e: ah!!! ficou perfeito... aih penso: putz eu era um chato quando criança, nao bebia leite de jeito nenhum... só fui começar a mamar lá pelos dezoito... aih o estrago já estava feito: fui criado sem cálcio, mesus dentes já estavam todos fodidos... afasto esse pensamento, sorrio para o espelho e ...gosto! gosto doque a superbonder faz por mim: ai brô, mó sorriso maneiro... e as pessoas todas lá na praia ... com os seus bundoes na areia... todo aquele leite guardado, em todas aquelas tetas, e os meus dentes aqui todos podres... e nao tem naque se possa fazer... sera q chega uma hora que vc comeca a ficar contente?! sera que chega num pedaço do filme que vc comeca a achar bom?! putz eu acho a maior aventura viver... passo por momentos divinos como esse na kombi colando os meus dentes... mas na maioria do tempo eu costumo achar a vida tao chata... eh isso mesmo: se baixasse uma venusiana aqui agora e me perguntasse: terrestre, alto lá!!! oque voce acha da vida?! da existência?! eu diria sem pestanejar: eh muito boring! eh basicamente movida a quimica: ten uns relampagos de chope, umas explosoes de cocaina, umas tonteiras de orgasmos... mas isso é só 1% to tempo... os outros 99 sao muuuuito! muuuuito chatos mesmo!!! ah!!! oque é isso cara?!?! sério??? sério!!! seja honesto, muuuuiito sincero com vc mesmo e me diga?! - ok pode ser que para deus seja 10% heaven e 90% hell... mas Deus meu chapa, Deus deve ter umas quimicas du caralho!!!! segue a kombibranca agora já na avenida atlantica... entramos em copa e ... mais areia branca, mais mar azul mais peitos e bundas espalhados pela areia... - cara que ceu azul!!! quando eu tinha uns 12 anos eu adorava soltar todo o ar que existia nos meus pulmões e deitar no fundo da piscina... eu caia até lá embaixo e ficava olhando céu... eu me sentia meio astronauta: fica voando lá pelo fundo da piscina... acho que passei a metade dos meus veroes de garoto debaixo dagua... voando... lah pelos 16 me boiaram umas ideias meio suicidas... e os veroes me vieram com muito mais chuva! "and i'm happy when it rains" (jesus e mary chain - darklands) ateh hoje eu fico\incrivelmente feliz quando chove... eu me lembro de estar no clube morto no fundo da piscina enquanto todos meus amigos, abrigados da chuva lanchavam olhando o ceu chover em mim: astronauta chumbado la no fundo, tentando ver se conseguia morrer: parar de respirar mesmo olhando a beleza daquelas nuvens negras... ia dando uma tontura... uma tontura, e o peito parecendo que ia estourar, e eu sempre voltava a tona... e num unico movimento enchia os pulmões e descia ao fundo para morrer de novo... mas no fundo no fundo da piscina, eu encontrava os meus 1%, cara venusiana... - mas e o resto?! - o resto? - o resto eu te garanto: é pura dor...
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Escrito por Cadu Fávero às 15h46
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SIMPLES ASSIM
Pelado diante do inevitável
La fora o vendo, aqui dentro o vácuo
Na cabeça espasmos
No peito cantigas de crianças
Sempre trágicas
Tento esquecer o que nunca lembrei
Entendo pelo que sei não pelo que sou
Fugindo, me encontro
Fecha uma porta, abre uma janela
O sol não é capaz de aquecer o gelo de um coração
Só o amor
As manhãs não existem mais
Fazem parte do fim da madrugada
Não durmo, apago
O fim da tarde é meu despertar
Não acordo, sobressalto
Café, tomo com leite
Ressaca, tomo com água
Cerveja, tomo com sede
E a vida?
Ë cheia de surpresas
E vazia pela sua inevitável superficialidade
Escrito por Cadu Fávero às 14h34
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