Palavra Perdida
   
   
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DEPOIS DA CHUVA

Pilhado. Com os olhos voltados para dentro. Tentando achar uma saída para as elucubrações. Tento desesperadamente ser eu mesmo. Consigo com meus amigos sinceros. Eles de certa forma vêem o mundo dentro da mesma lente de aumento. Alguns distorcem mais, outros menos, mas é a mesma lente. Fora esses eu tento. Tento não ser estúpido com os chatos. Faço força pra sorrir em festas armadas. Seguro pra não rir na cara dos fúteis. Mas não consigo nada disso.
Outro dia num bar, no meio de muita gente, não tinha vontade de pensar em nada que estive fora de mim. As impressões que tirava eram sobre meu comportamento naquele lugar junto aquelas pessoas. Falava-se muito sobre nada e isso irritava. Pensamentos voavam. As pessoas cobravam a presença. Talvez elas estivessem certas. Mas eu não enchia o saco de ninguém. Tava na minha. No meio da multidão, mas sozinho. O que me prendia ali era o Jack dentro do meu copo. Quanto mais se cuspia ignorância, mais eu me perguntava: O que estou fazendo aqui? É a porra do Jack. Aqui o Jack é barato. Nove reais a dose dupla. Imperdível! Podia ter levantado da mesa claro. Devia ter levantado da mesa! Mas tava cheio o bar. Em pé tava difícil de ficar. Levantar era pra engatar a primeira e ir. Afundado na cadeira, enfim me esqueceram. Pude por alguns momentos mergulhar naquela confusão de frases que se falava ao mesmo tempo e distanciar delas. Só minha voz eu escutava na cabeça. O som das pessoas ficou tão baixo que parecia chiado de chuva. Nesse conforto eu viajei muito.
Em certo momento tocam no meu ombro. Era o garçom: Bonitão vai dormir aqui hoje?
Cadeiras levantadas. O que se ouvia era som de uma vassoura esfregando o chão. Não tinha ninguém. Acho que a chuva espantou todo mundo. Pendurei a conta e parti. O que pensei em todo esse tempo que chovia? É uma boa pergunta. A sensação era de bem estar. Depois que resolvi não ignorar o sofrimento, saio dele mais feliz.



Escrito por Cadu Fávero às 18h15
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